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A mágica da conta de luz
04.08.2004 | A não ser quando se está no paredão, ser governo é a melhor coisa do mundo. Pelo menos no Brasil. O ministro das Comunicações Miro Teixeira foi às manchetes declarar guerra às telefônicas e dizer que a tarifa ia baixar. Todo mundo acreditou. Afinal, o homem era governo! Era. Miro caiu, o presidente da agência de telefonia (contra quem ele brigava) também caiu, e a conta de telefone subiu o quanto quis. Agora, a ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, anuncia que as contas de luz vão embicar ladeira abaixo a partir do ano que vem. Aplausos, embora ela não tenha explicado como isso vai acontecer. Melhor não perguntar, para não estragar o momento de uma boa notícia do governo.
Neste momento, a demanda por explicações está mais voltada para o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Dilma teve um fim de semana de anjo, Meirelles teve um domingo de cão. Está no paredão, situação não tão rara em que ser governo deixa de ser uma bênção. Aí, a coisa se inverte. Em vez de acreditarem em tudo o que você diz, passam a desconfiar até do seu “bom dia”. Antes que se conclua se o presidente do BC declarou ou não à Receita Federal tudo o que devia, é bom esclarecer: Meirelles está na mira de um dos lobbies mais poderosos da República.
Aquela velha turminha de industriais da Avenida Paulista, corrente dominante da Fiesp e inventora do mito Delfim Netto, está indo mais uma vez à luta de desvalorizar o real. A moeda mais fraca frente ao dólar – antiga receita do Delfim – lhes rende ganhos estupendos em exportação, e eles estão na praça de novo com aquele slogan de que “a política cambial está matando a economia nacional”. Não dá para confundir. São os mesmos de sempre, que tramaram as várias frituras do ministro Pedro Malan no governo passado (com a ajuda de José Serra), e têm em José Dirceu um amigo de fé.
Muita explicação, enfim, será pedida a Meirelles, na proporção inversa à que será pedida a sua colega de governo Dilma. Mulher de sorte. Numa daquelas solenidades pomposas, em que o governo monta o circo completo para mostrar à imprensa e ao público que vai fazer um anúncio importante, a ministra anunciou a salvação do setor elétrico brasileiro. Mais pujante, mais competitivo, mais universalizado, à prova de apagões. E o melhor da festa: após a revolução da ministra Dilma, as contas de luz ficarão mais leves no bolso do brasileiro.
Quem foi além das manchetes e desceu aos detalhes do noticiário, porém, deve ter ficado com pelo menos uma pulga atrás de cada orelha. Dá para notar que a questão da tarifa mais barata é uma aposta da ministra, que ela passa a anunciar como fato ao notar que a sua “revolução do marco regulatório” não rende um título de página sequer. E o que dá a Dilma Rousseff a inspiração para declarar que as contas de luz vão ficar mais baratas, e para vender baratinho essa ilusão ao país?
A principal mudança do novo marco regulatório – ou, fugindo do burocratês, das novas regras – do setor elétrico é que a energia será comprada pelas distribuidoras em leilões nacionais. Ali estará toda a energia que as geradoras tiverem para oferecer, e os preços serão condicionados pelo mercado, não mais pela negociação isolada entre um comprador e um vendedor. Aí entra o governo dizendo que as vendas serão feitas “pelo menor preço” oferecido. Ou seja, o leilão acaba antes de começar.
Nesse anti-leilão, o mais provável é que as geradoras combinem entre si “pisos” para o preço da energia, para escapar do dirigismo do governo. O outro risco, evidente, é de as empresas com custos mais altos se verem forçadas a vender energia por valores abaixo do que podem – e aí logo se assistirá ao velho filme de companhias semi-quebradas batendo à porta do Tesouro nacional. Na vida que corre fora do gabinete da ministra Dilma, e das maravilhas teóricas de seu anti-leilão, há um bom punhado de razões para que o preço da energia ignore as previsões generosas do governo.
O país ainda t
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