Caetano Figueiredo:Onda Solitária ~Caetano Figueiredo~ ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ Onda Solitária ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ ( VERSOS) ______ ~1960~ "De Pontibus" de J. Marriman, é um tratado clássico das pontes anglo – saxonicas. Eu, que também andei estudando aquela lingua De soldados e de pastores, pelo mesmo motivo constante No prefácio d’aquele livro, escrevo: Laus Tibe , Carissima Poesias Publicadas em Jornais .............................................................................................................................. Coluna "Correio Social" – Sobral-Ceará, 10/10/1959 DONA FELICIDADE Caetano de Figueiredo Nos bons tempos dos quais tenho saudade Minha mãe, muitas vezes, me dizia " Menino, vai chamar Felicidade, Ali perto, na rua da Alegria..." E tão de pronto essa ordem era-me dada Eu deixava os brinquedos e corria A procurar Dona Felicidade, Costureira, na rua da Alegria. Cumprida tal missão, constantemente Vinha Felicidade, sorridente, De olhos risonhos, de apressado andar; Felicidade é mesmo assim, a gente Chama, às vezes, por ela inutilmente Pois ela vem, si tem pressa em Chegar. .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. Coluna " Correio Social " SERENIDADE Sempre eu soube esperar. A minha vida Tem sido longa e sigilosa espera Que se realize uma falaz quimera Que eu reencontre uma ilusão perdida E no final de contas, dessa lida Suave como mover pequena esfera Resta ao meu coração o sol de primavera Da minha mocidade consumida! De modo que ao chegar certa hora derradeira A que muito se teme – ao calor da lareira Minha alma ficará ainda à espera de alguém De alguém que há de chegar, talvez trazendo flores E sem gestos teatrais de exibição de dores, Confirmará, talvez, que sempre me quis bem... Caetano de Figueiredo .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. VITÓRIA AMARGA No distante Itaqui, a nossa vida Era ingênua, risonha e resumida Em recíproco amor para casar depois... Depois – quando eu já fôsse diplomado Engenheiro,Doutor, ou Advogado, Ganhando pelo menos para dois... Mas, para a colimada formatura, Faltava quasi um lustro de aventura De sorteios de ponto e colações De encrencas com bedéis e uns professores Solenes, neuropatas, transmissores De longas e soníferas lições Com nove ou dez honrosas exceções. Cassandra, uma mulher, com intransigência Logo se opôs à projetada ausencia Mulher não gosta de competição E no afâ de evitar eu fôsse reprovado, Atou ao meu pescoço aureo fetiche alado, De cabeça de pombo, n’um cordão! Quasi um lustro depois daquele dia, No auri-verde salão da Reitoria, Eu, que colara grau vencendo mil escólhos Vi uma chispa de luz que há nos teus olhos Luzir no anel de grau da minha mão. .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. O SUAVE ENLEVO Quando em férias voltaste do Colégio, Eu andava escrevendo um florilegio Dos ingênuos madrigais em teu louvor; Chegaste cheia de meiguice e vida E a minha alma ficou tão comovida Que eu mal pude dizer-te : és uma flor! Naquela mesma tarde alvissareira Fomos revêr o sitio Bolandeira A cacimba empedrada e o cajueiral O povo do "São Pedro" , alvoroçado Bispava a minha farda de soldado E o teu vestido de colegial... Chegada a noite feiticeira e quente Cheia de vagalumes – juntou gente Para nos ver de perto, no salão; E quando alguma velha cochichava, Se estavas minha noiva, se eu te amava Piscando os olhos, respondias: não! Mas quando os visitantes, horas mortas, Se foram embora e se trancaram as portas E janelas do avoengo casarão, Tu, dando início ao sonho azul celeste, Que foi nossa novela, me disseste Que eu era o dono do teu coração! .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. GATA BORRALHEIRA Teu juvenil amor – nosso quasi noivado – Foi um conto de amor ingênuo e delicado Como aqueles do livro " O Reino da Ilusão"; Quando eu te conheci, morena feiticeira, Vivias tal e qual a " Gata Borralheira " No solar do Itaquí, no avoengo casarão. Mas depois desse belo e inequecível dia, Em que te conheci, chegou toda a alegria Que Deus deu aos mortais para nós dois: É que o sol, o verão, as excursões às cristas Da montanha e o ar das tardes de ametistas, Estancaram a alergia e a curaram depois... Aquele nosso amor – quasi noivado – Deixou o meu destino tão marcado Pelos teus beijos que, um tremor na mão, ...inflexível avatar de um hipertiroideano, Me conduz, de mês a mês, de ano a ano, De semana em semana, dia a dia, Aos sonhos mortos da melancolia Ao reino da ilusão... E tu voltaste, pela vida inteira, Ao modo de viver da " Gata Borralheira " No aconchego de um lar, simples, feliz... Quem me dera viver contigo a mesma vida Na tua solidão incompreendida, Mas o bom Deus não quiz! .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. AQUELA SEXTA-FEIRA Quando chegaste , era uma Sexta-feira; A Livramento e o Conego Teixeira Jogavam, discutindo, o seu gamão E, - como em tudo há sempre uma ironia, - Aquele belo e tumultuoso dia Era uma SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO.... Quasi um ano depois, quando partiste Certa manhã mais húmida e mais triste Do que teus lindos olhos côr de imbúia, O povo do Itaquí, na Palestina, De uma maneira alegre, viperina, Festejava o romper de uma Alelúia... Sei que não lembras mais aquele dia Quando me deste o primeiro "bom dia", Quando eu beijei, primeiro, a tua mão; Mas eu me lembro, pela vida inteira, Daquela tumultuosa Sexta-feira – E daquele DOMINGO DA PAIXÃO... .............................................................................................................................. ............................................................................................................................. QUANDO ERAS MUITO MOÇA Aquele nosso amor – ingênuo sonho Que te fêz formosa e, tão risonho Fêz com que fôsse pela vida inteira; Aquêle nosso amôr sempre deu vaza A muitas aflições dos lá de casa E à consultas ao Cônego Ferreira... Namorados, nós dois, sempre sòzinhos Davamos caça aos passaros, aos ninhos, Nos verdes labirintos dos cipós... E então – eram os escandalos supremos- A Livramento, às voltas com o Adoremus, Nos reprovava de passearmos sós. Aos domingos de festa, o campanário Bimbalhando sonoro e tumultuario, Alvoroçava o ingênuo lugarejo E então, muito mais cedo, alvoroçados, Ficavamos a rir, de braços dados, Depois da praxe dos setenta beijos... Setenta beijos, só, - era o "bom dia" Que tu me davas cheia de alegria, De olhos risonhos, de emoção na voz; Mas, porque fôsses moça e eu muito moço,- O nosso idílio enchia de alvorôço Nossos paes, nossas mães, nossos avós... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. ÁGUAS PASSADAS Meu amor, o teu mal é todo asneira Pois eu fujo contigo ou vou ser freira Se não me deixam casar com você ... -No tempo em que esta jura ela fazia, Eu andava bem mal na Geografia E ela bem mal andava no A.B.C. Minúcias de meu sonho que te expandes! -És a blusa maruja, os olhos grandes- Aqueles olhos tristes de carvão; As mãos de sêda, a voz bemolisada, Dessa que trouxe a minh’alma exaltada Uma gloria de bolha de sabão! ... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. DOIS DESTINOS Ao voltar ao Itaqui achei tudo tão perto: -A cacimba, da casa; o curral, do jardim; O meu quarto, do teu; - mas tudo tão deserto Do que o tempo levou, do teu amor por mim! Vi nossos monogramas na mangueira: -Foi um pacto de amor lavrado a canivete Quando juraste:- " de qualquer maneira , Quer esse povo queira, quer não queira, Eu serei tua ou pintarei o sete" ... Anos depois, tu eras Normalista E Filha de Maria! E eu - era um pobre sentimentalista -Um homem que sofria ... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. LIBERDADE Sia. Quinóta da Serra, a vida inteira Segunda, têrça, quarta e sexta-feira Nos transportava ao "Reino da Ilusão"; Contava histórias lindas, desoladas, De Princesas, de Principes, de Fadas, De um ciumento e terrivel Castelão... Ao calor do fogão que, na cozinha, Nos aquecia, a plácida velhinha Nos transportava ao "Reino da Ilusão"... Para a velha Babá – que caducava – Tu eras a Princêsa que eu amava E eu, ciumento e terrivel Castelão! Mas eu naquele tempo já pecava... A presença da velha e antiga escrava Nos privava do bem de estarmos sós; E eu – que era o Castelão – determinava Que fôsse embora àquela antiga escrava Para haver liberdade para nós... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. SABATINA Era um velho costume na terreola, Em cada antiga e conceituada Escola, Haver, semanalmente, uma arguição; E tu – que andavas sempre enamorada – Tinhas a mão mimosa castigada Porque nunca sabias a lição... A nossa velha mestra – Sia. Doninha – Períta em Luis Felipe e em ladainha, Certa manhã, mandou-nos conjugar Um verbo um tanto ou quanto inconveniente Nas flexões do Passado ou do Presente: O verbo confissão – o verbo Amar. Conjugue lá, você que está brincando... (Mostrou-me a palmatória...) o verbo, quando A Pessoa que fala, já deixou De querer bem alguém ... E eu, perturbado, Olhando sem querer para o teu lado, Respondi comovido -: Ela me amou ... Quando chegou tua vez de ser arguida, O sino deu sinal para a saída – Teve final aquela Inquisição ... E, à noite, em tua casa, na calçada, Tu recitaste, sempre apaixonada, - No modo conjuntivo, - o verbo da arguição! .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. QUARTO CRESCENTE Naquela noite de Quarto Crescente, Abandonamos, sorrateiramente, Nossas rêdes e o velho casarão E, - porque fôsses minha enamorada, - A noite escura, a solidão da estrada, Não te trouxe temor ao coração. Parece, ainda, ouvir a ventania Uivar, bramir, na escura serrania, Gemer, estrangulada, nos grotões; E a mataria, desfolhada, escura, Carpir como se fôsse uma creatura Nas tais histórias das assombrações ... Relembro, então, os beijos que me deste, Teu vestido de cassa azul celeste – E as juras namoradas que trocamos Naquela noite de Quarto Crescente Quando fugimos sorrateiramente Do velho casarão onde moramos. Anos depois, tu eras Normalista, Eu, Engenheiro e, ao te perder de vista Eu me esquecí tambem da tua vóz ... -Um dia, ouvi de Monsenhor Pereira Que te casaste numa sexta- feira, -Num dia aziago para todos nós! Nesse dia, de certo, a ventania Uivou, carpiu, na escura serrania, Gemeu, estrangulada, nos grotões; E a mataria, desfolhada e escura, Chorou como se fôsse uma creatura Como se fosse os nossos corações! .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. PENITÊNCIAS A conspirata que nós dois tecemos Escondendo o velhissimo Adoremus- De nada nos valeu mais uma vez ... E assim, nós dois, naquela sexta-feira, Confessámos ao Conego Pereira O que agora é segrêdo entre nós três ... Naquela tarde, o candido vigário, Determinou-me, no confessionário, Senão negava-me absolvição, - Que, quando eu te beijasse, só beijasse Por indulgência dêle ... – a tua face E quando muito, os dedos de tua mão! Porém ficaste moça e eu fiquei moço E me beijavas com tanto alvorôço, Com tanto frenesí, com tal paixão – Que, por mais que eu quisesse e procurasse, Quasi nunca beijava a tua face Nem as pontas dos dedos de tua mão!.... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. ALTA NOITE A escuridão da noite, a chuva, o vento, E a tristeza sem par do firmamento, Nos encheram de tédio e solidão; -Naquela noite, minha enamorada, Não pusemos cadeiras na calçada Nem eu beijei a flor de tua mão... Alta noite, chegando um luar de prata, Propicio à serenata, a serenata Do meu violão, de manso, te acordou.... Quando abriste a janela, emocionado Senti, num beijo, esse gosto salgado Que a gente tem nas faces, se chorou..... Quando às vezes acordo e a noite escura Mefaz lembrar os transes da aventura Da noite em que choraste e eu te beijei, Sinto,de novo, o bem que me quiseste E os beijos amorosos quer me deste Para selar segrêdos que guardei!.... ............................................................................................................................ .............................................................................................................................. HISTÓRIAS DO AMOR Era nas noites calmas, enluaradas, -Quase tão claras como qualquer dia - Que a nossa velha ama repetia As histórias dos Principes, das Fadas. E a Princesa esqueceu - ela disse - Ao ficar moça, as juras namoradas.... Essa história de amor nos comovia E eu ficava de pálpebras molhadas. Tu, meu amor, mais emotiva ainda Do que eu, ficavas linda, muito linda, Quando acusavas a Princesa Lís.... Mas hás de vêr, em época vindoura, Que em toda história de morena ou loura Costuma haver um Principe infeliz! .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. EVICÇÃO Naquele tempo bom, tão distanciado, Em que floriu o enlevo delicado Da eterna historia de eu querer-te bem, Certa noite de chuva e sexta-feira, A Livramento e Monsenhor Pereira Discutiam os limites do Belem E, meu amor, que encrenca, que barulho -E quanto nome feio: advogado, esbulho, Surgiu naquele jogo de gamão! Então, pensando que ninguem olhasse, Tomei teus labios contra a minha face E dei um grande beijo em tua mão. Mas o meu beijo foi tão clamoroso, Tão cheio de carinho, tão custoso, Que sentimos, nós dois, um beliscão.... -Veio logo a defesa: "Tia Chiquinha, O beijo do priminho na priminha É o que o Direito chama uma evicção!" Do final de tal noite merencorea Até o final da nossa ingenua historia De amor de primos, nós, - por precaução- Passamos a apostar beijos, abraços, "fiados" Nos mesmos lances e nos mesmos dados, Mas a 30 h/d dos jogos de gamão!.... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. O SERMÃO DO ENCONTRO Vinhas de branco; vinhas distraída Como é teu modo desde aquela idade Quando o nosso romance - a nossa vida- Era um problema de felicidade E, junto a ti, a Virgem Concebida, -Num andor azul, toda diafaneidade, - Abria a marcha à procissão sentida Das devotas mulheres da cidade. O Vigario, de prêto e dedo em riste, Fez um sermão apaixonado e triste, Cheio de gesto, em retumbante voz; E, ao perorar; "Que mais amou , na vida, Do que Jesus à Virgem Concebida?" -O olhar da multidão fixou-se em nós.... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. A ÚLTIMA TENTAÇÃO Ela chegou-se a mim, muito mais bela ainda Que sempre e me falou que tudo era acabado Entre nós, pois soubera, envôlta em meu passado Certa Princesa loura, adolescente e linda. Eu nem soube negar....-Numa tristeza infinda, Notei-lhe, sob o luar, seu corpo apaixonado; Demais ao meu castelo esplêndido, isolado, Até julguei loucura aquela abrupta vinda.... Era quase manhã, entre os lótus e uns buxos, Cantava a água gelada e clara dos repuxos E havia, no jardim, pavões adormecidos, Quando ela resolveu - entre risadas francas - Confessar que chegara, envôlta em rendas brancas Só para castigar os meus cinco sentidos.... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. SEGRÊDO Para que sejas minha, ainda é muito cedo: Tu és quase infantil e eu sou, ainda, pobre.... Nosso amor deve, pois, ser o maior segrêdo Dos teus olhos da côr de clorêto de cobre Não contes a ninguém o delicado enrêdo Do nosso grande amor sentimental e nobre; Não tenhas confidente, amor, que tenho mêdo; -Sempre morre um prazer quando a inveja o descobre. Tudo isso eu lhe dizia...- Uma tarde, ao sol-posto, Brigamos sem motivo: ela voltou-me o rosto E o nosso caso andou, nas rodas, boca em boca.... Porque terão brigado aqueles, minha gente? -Só sei que ele adorava a moça loucamente; -Só sei que ela adorava o moço como louca.... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. BOM LADRÃO Desceste do cavalo e, alvoroçada, Desceste logo, sem me dar a mão E, assim, pisando a escada da calçada Pisaste em cheio no meu coração. Naquele dia, estavas arruinada Por motivo de um jôgo de gamão; No qual, tirando uns tentos, minha amada, Pratiquei uma simples evição.... Pouco tempo depois já não havia Entre nós dois capricho ou prevenção E, desprezando apôdos e motejos, Dos outros primos, recobri de beijos A tua boca que, ainda pouco, havia Chamado ao teu parceiro de ladrão!.... .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. A VOLTA DA PRINCESINHA Certa noite de chuva, às minhas mãos chegava Uma carta de amor, às pressas redigida; "À noite eu partirei para ser tua escrava; Vou para o teu amor por toda a minha vida". Uma saudade imensa era o que me restava Da Princesa aromal, trigueirinha e querida, Que vinha para mim - vinha ser minha escrava - Ela que fôra o amor de toda minha vida... Emoção de esperar numa velha alamêda, Uma mulher de mãos macias como a sêda, De olhos da côr da noite, lábios de coral; -Ternura de apertar nos braços, doidamente, Alguém que quis fugir do coração da gente, -E fugiu e sofreu, e voltou afinal! .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. NOSSA HISTÓRIA SECRETA Nossa história secreta, principiada, Entre dois beijos, tão discretamente, Deve permanecer ignorada -Como até hoje - para toda gente Que a tua boca trêfega e rosada E a tua voz, macia, suave e quente, Jamais nos denuncie dizendo nada Que nos possa trair presentemente Quando, porém, num dia porvindouro A velhice oxidar teus olhos de ouro E ninguém mais te admirar - então- Tu poderás, feliz ou desolada, Contar a alguém a história apaixonada Da minha vida e do teu coração! .............................................................................................................................. .............................................................................................................................. ALEGRIA Quando partires, amanhã bem cedo, De olhos risonhos, de alma enamorada, Julgarás escutar o teu segrêdo Na voz do teu pisar sobre a calçada... Que essa ilusão não se transforme em mêdo, Nem te faça ficar sobressaltada; - Ninguém descobrirá nosso segrêdo Na canção dos teus passos na calçada... Guarda, porém, contigo, essa alegria Que dos teus lindos olhos se irradia Quando tu vens, quando te vais depois... Porquê teus olhos de ágata polida São janelas abertas para a vida - Para a vida secreta de nós dois.... .............................................................................................................................. ............................................................................................................................ À LUZ DO LAMPIÃO Eu fui dizer ao velho mar, um dia, Quanto te amava enternecidamente; Ele me ouvia e, pachorrentamente, Do seu leito de abismo, me inquiria Mas - quando eu lhe contei a quem queria Com tanto afeto e apaixonadamente- Ele encrespou-se todo, de repente, E, altas horas da noite, inda rugia.... Contei, então, ao sol, na hora do poente -Na hora da Ave Maria- Quanto eu te amava sigilosamente E o bem que te queria! O velho sol, na crassa ingenuidade, De velho Deus pagão, Fitou-me sem maior hostilidade ( Um tanto de revéz ) Mas prometeu-me que projetaria Caso perto de mim passasses, algum dia, - Tua sombra, no chão, Debaixo dos meus pés.... Veio porem a noite, iluarada, E a luz do poste de iluminação Da tua rua êrma e sossegada, Projetou nossas sombras, na calçada, - Unidas pela mão! ..............................................................................................................................