DISCURSO COMEMORATIVO DOS
30 ANOS DA TURMA HUMAITÁ
Proferido pelo CMG(EN) Francisco Roberto Portella Deiana
Colégio Naval, Angra dos Reis, RJ
Em 13 de abril de 2002.
Coube-me a imensa honra de proferir estas palavras em nome de meus companheiros de turma, para registrar este momento tão significativo de nossas vidas. Completamos trinta anos de ingresso na MB, ou, mais precisamente, trinta anos que cruzamos, pela primeira vez, os portões deste Colégio Naval.
Durante várias semanas pesquisei em meus alfarrábios, revi fotos antigas, troquei mensagens eletrônicas com muitos companheiros, de modo a entrar novamente em sintonia com a atmosfera que nos envolvia naqueles distantes anos do início da década de 1970, mais precisamente os anos de 1972 e 1973. Muitas cenas, fatos e momentos me vieram à mente e resolvi, então, envolto em deliciosa névoa nostálgica, deixar que o pensamento voasse solto no tempo e me trouxesse de volta o Colégio Naval daquela época.
Quando me dei conta, estava no início do primeiro ano, trocando os trajes civis cuidadosamente selecionados para aquela viagem pelos novos uniformes, fabricados com tecidos difíceis de manter e que somente à custa de muita goma eram capazes de nos proporcionar, vez por outra, uma "parte azul" nas paradas. Logo depois, como que viajando dentro de um caleidoscópio, com a ordem natural subvertida, estava na aula do decano Gilberto, ouvindo interessantes histórias entremeadas com fragmentos de geografia... Veio-me à mente o último tempo de aula das sextas-feiras da turma 12, ministrado pelo velho Jordão ¾ o "Piu-Piu" ¾ , outro decano, que com sua fala mansa e pausada nos mandava consultar o dicionário sempre que surgia um vocábulo mais esdrúxulo, que nos traía o conhecimento e arrancava gargalhadas, como se estivéssemos em um conhecido programa de televisão... Um instante depois, era o Armando com seu jeito simples e calmo a inquirir os mancebos sobre as dúvidas novas e velhas... Repentinamente, passou o professor Maurício com seus esses sibilantes e repetidos e sua álgebra terrível que tanta tragédia e repetição também causava... E também passou o professor Souto ¾ o nosso querido Peru, nosso Paraninfo ¾ afirmando categoricamente que não tinha "bizú", mas que sempre, carinhosamente, dava um jeito ou outro de dar uma ajuda aqui e ali... Lembrei-me de seu automóvel preto, dos anos quarenta e de seu fiel carona, aquele nosso professor de Trigonô ¾ Figueiredo, ou Tarzan ¾ que usava por baixo do guarda-pó somente um babador com colarinho, simulacro de camisa social e gravata. E o nanquim do mestre Ovídio? Ah, os temores e desesperos ao se pingar uma gota de tinta por sobre o papel vegetal... O desprendimento terreno ao se iniciar um croqui de nanquim e a luta intensa com o tira-linhas ¾ objeto hoje absolutamente arcaico ¾ usado em conjunto com o compasso Kern, que, às vezes imperfeitos, faziam um estrago e deixavam sinais que a gilete tinha que raspar e a borracha encobrir, para que o fraquejo pudesse passar despercebido. Nem sempre conseguíamos... O velho jargão "Você é um assassino!", que nos causou, tristemente, uma lamentável censura no último Gingilin. É... Os Gingilins também eram censurados... Bem, esse era o clima que reinava não apenas aqui, no CN. Estávamos em 1973...
As deliciosas aulas de História Naval, que tivemos o privilégio de assistir sem a preocupação de ter que estudar para prova, pois aquele era o primeiro ano disciplina, ainda em caráter experimental, brilhantemente ministrado pelo ilustre professor Guilherme de Andréa Frota. E outros tantos ¾ não menos merecedores de respeito ¾ me vieram à mente, como o Galloway, com seus fitoplânctons e tubarões, o Batatinha e o Edison, o Farina e sua História cheia de Filosofia e faraós do Egito, o Álvaro ou Jabutimóteo, o Leopoldo... As aulas de Química do professor José Antônio ¾ que estreou no CN com a nossa turma ¾ , hoje Coordenador-Geral do Departamento de Ensino, último remanescente daqueles anos. Sem falar nas aulas do Ensino Militar Naval, quando os oficiais do Corpo de Alunos iam para o quadro-negro e também se transformavam em mestres. Bem, pelo menos assim achavam.
Continuei minha viagem e aportei em um estudo obrigatório do primeiro ano, em que se podia ouvir um coral de prefixos variados, entusiasticamente puxado por pobres calouros que possuíam alguma característica mais notável. Como num passe de mágica, dei um salto no tempo e fui parar na turma 23, um ano depois, justamente quando uma ratazana resolveu subir pelas pernas do Amato, em meio a gritos onomatopéicos de origem diversa...
Os DHS ¾ dias-de-haja-saco ¾ estrategicamente colocados no canto inferior esquerdo dos quadros das salas de aula, que funcionava como relógio de grande precisão, a nos contar quantos dias ainda faltavam para o próximo licenciamento. Na segunda-feira, após o regresso, era simplesmente insuportável olhar para aquela marca terrível: doze dias! Era melhor nem olhar! Mas o contador chegava a zero e aí tudo era festa. Saíamos das salas como se estivéssemos prestes a enfrentar uma catástrofe, sendo urgente evacuar o prédio em segundos. Momentos depois, estávamos nós formados no pátio interno, preparados para o tão esperado licenciamento. Formatura, inspeção, banda tocando, alguma recomendação específica do COMCA, um ou outro que ainda tinha que correr para dar uma aparada no cabelo e fazer o sapato, papeletas prontas, às vezes um Gingilin e, minutos depois, estávamos dentro dos especiais saboreando os indefectíveis sanduíches de queijo e de mortadela, acompanhados de iogurte "Barra Mansa" ¾ aquele da caixinha de papelão ¾ e garrafinhas plásticas de refresco de laranja ¾ aquelas que vinham dentro de uma redinha amarela. Parada em Passa Três para o lanche em verdadeira algazarra de felicidade, pois em cerca de mais três horas estaríamos em casa novamente. Havia alguns, mais calorentos, que desciam do ônibus despojados do paletó do jaquetão, para os quais essa lembrança vem também, certamente, associada a encontros de grau superior ¾ com o COMCA ¾ , normalmente premiados com uma estadia no bailéu. Porém, logo tínhamos que voltar. Dois dias depois, no domingo após o almoço, nossos corações se apertavam novamente: era hora de voltar, levando conosco lembranças de boas horas vividas em atropelo para que se esticassem e durassem mais do que lhes era possível durar. E lá estávamos nós na entrada do Primeiro Distrito Naval embarcando de volta, em viagem tumultuada e cheia de histórias e aventuras fantásticas, possíveis apenas para os alunos do Colégio Naval. No início, muita conversa, no entanto, depois, tudo se calava e desaparecia na escuridão da estrada. As quatro horas e tanto eram eternas... Mas chegávamos.
No dia seguinte, lá íamos nós para as aulas, rancho, estudo obrigatório e tudo recomeçava, inclusive a ansiedade pelo próximo fim-de-semana. No primeiro ano era muito mais terrível, pois havia uns veteranos que tornavam nossas vidas verdadeiramente insuportáveis. Não vou citar nomes, porque, dia desses, o Pêgas muito bem retratou o que nós achávamos daqueles rapazes de bermudas, sapatos pretos e meias brancas que nos receberam. De início eram apenas os oficiais-alunos, contudo, depois, chegaram os outros... Não vou lembrar aqui os momentos que foram realmente desagradáveis, entretanto, cada um de nós, com certeza, traz na mente a lembrança de um triste incidente associado a um ou outro veterano mais imaturo, sendo dispensável enumerá-los.
Os licenciamentos tinham, no entanto, um significado ainda mais especial para um pequeno contingente de nossa turma. Não me refiro aos presos, impedidos e afogados. Evoco o glorioso e heróico grupo que tinha que permanecer por meses a fio no Colégio: os residentes, carinhosamente conhecidos como "bodes". Gostaria de render-lhes, verdadeiramente e sem qualquer ironia, uma sincera homenagem. Para eles, sem dúvida a vida era muito mais difícil e a maioria de nós talvez não compreendesse bem essa realidade. Perdoem-nos, amigos, se com nossas brincadeiras menos ¾ digamos ¾ polidas, por vezes não soubemos enxergar as agruras e tristezas, diferentes daquelas que sentíamos, pelas quais vocês passavam.
De repente, em minhas recordações, desperto no Juriti ouvindo "Alone Again" em um radinho de pilha que, com muito esforço, conseguia pegar a Mundial. Parque esplêndido que com sua beleza e paz tornava as horas dos fins-de-semana mais belas e mais cheias, testemunhando a tristeza, a solidão e a saudade que, às vezes, se nos acercavam. Era um pequeno oásis de tranqüilidade que, silenciosamente, também nos ajudava a esquecer nossas melancolias. Sentei-me em um dos bancos das tendinhas cobertas de palha e vislumbrei os telhados do casarão amarelo, já sexagenário, e pus-me novamente a pensar nos anos que estavam por vir, na Escola Naval e no tão sonhado espadim, na vida lá fora... Angra dos Reis e seus fugazes prazeres, às vezes proporcionados pelo proibido ¾ e perigoso ¾ "aéreo"...
Passa-se um tempo e me vejo na fronteira dos dois alojamentos do segundo ano, em pleno fogo cruzado da famosa e inesquecível Batalha de Alojamina, travada entre os heróicos e bravios batalhões do Grêmio de Hidráulicas e do Grêmio de Incêndios Repentinos, planejada durante semanas e semanas de ações subversivas de comandos quase suicidas. Felizmente, depois da tempestade, foi-me possível ainda presenciar a paz imposta pelo COMCA e pelo abnegado abecedário de capitães-tenentes do CN: o CT A, o CT B, o CT C, o CT E, o CT F e o CT G. Faltava o CT D...
Acordo do pesadelo e me vejo em outra tortura, em pleno TFM, sob o comando do implacável Messias, com sua forma engraçada de nos fazer cumprir as exigências curriculares, entre barras, flexões e corridas na pista, ou mergulhados na piscina ou nas praias de Angra.
Saio do TFM e caio na quadra do "Elefante Branco", recém-inaugurado para substituir o ginásio-auditório-cinema-capela, em meio a uma partida de vôlei da NAE, gritando "Quiricomba Zepelin/Cangerê com Gingelim/Areguá-guá-guá..." Pena que não conseguimos levar aquele caneco...
Em um piscar de olhos estou com meu branco luminoso e reluzente e só então percebo que é o efeito da luz negra que o pessoal do Grêmio colocou para dar um toque especial nas cores fortes das faixas que decoram o ginásio: vai começar o Baile do Calouro. Fecho os olhos novamente e quando torno a abri-los só dá tempo de ver que o ônibus que trouxe a delegação daquela escola normal já está fazendo a curva lá embaixo, levando com ele as namoradinhas que passariam a povoar nossos sonhos de homem-menino...
Acompanho meus devaneios e sinto aquele clima maravilhoso de primaveras e verões cheios de luz e cor, florindo as árvores e carregando as mangueiras que nos davam tanta água na boca, enquanto batíamos papo sob suas sombras generosas. O azul magnífico do mar transparente na ponte em dias de prova final... Os passeios de canadense... É certo também que havia os outonos e os invernos, úmidos e frios, que somente o calor das amizades que germinavam, floresciam e se fortaleciam intramuros conseguia ajudar a passar.
Inevitável que não me venha à mente a lembrança dos queridos companheiros que já não estão entre nós aqui na Terra e que conosco estreitaram as mãos e vivenciaram tantos momentos de dificuldade e de alegria. A eles, o nosso agradecimento e saudade.
E com essa recordação tornei, contra minha vontade, à realidade de 2002. Mirei-me no espelho e percebi que aquele rapazola de trinta anos atrás já não tinha mais os mesmos traços daquela época. Meus companheiros também haviam mudado. O tempo inexorável imprimiu marcas visíveis em nossos semblantes. No entanto, estamos aqui, hoje, trinta anos depois, abraçando-nos e emocionando-nos juntos. É uma prova cabal de que, não importa quanto tempo passe, onde quer estejamos, mesmo com idéias e ideais diferentes, caminhando por searas diversas, a lembrança dos momentos aqui vividos e das lições que aprendemos não envelhecerá jamais. Graças a eles, fomos capazes de, sobretudo, forjar em nossos íntimos valores imprescindíveis para o engrandecimento do ser humano, como amizade, camaradagem, honestidade, coragem moral, respeito às tradições e às instituições, e amor à Pátria.
Antes de encerrar este discurso que ¾ faço questão de enfatizar! ¾ muito me honra e emociona, gostaria de ler o Editorial do Gingilin número 4 de nossa turma, publicado no dia 7 de setembro de 1973. Mal sabíamos que nosso Ginja, ainda imaturo, tão acostumado à sátira e afeito a personagens caricatos, seria tão sábio e quase profético! Em letras hoje já quase inelegíveis, dizia ele:
"Ei, você! É com você mesmo que eu estou falando. Você, que após ter lido este jornal, ou que somente passou a vista por ele, o abandonará na poltrona do ônibus ou o jogará pela janela".
"Pense um pouco. Pense que um pequeno grupo, seus colegas, se preocuparam durante dias, arvoraram estudo, as horas de recreação, e como se esforçaram para lhe proporcionar uma viagem menos. É um trabalho duro, sabe? Não é fácil fazer um Gingilin. Custa-nos muito. Por isso, olhe-o de maneira diferente. Ao recebê-lo, abra-o, leia-o, ria e se divirta com ele, diga que não está bom, critique-o até, mas não o abandone de maneira alguma. Guarde-o em sua maleta e, quando chegar em casa, enfurne-o dentro de uma gaveta qualquer. Você o esquecerá lá e, um dia, quando não for mais daqui, vai redescobri-lo, e eu garanto que aquele mundo virá a você, um mundo de alegria e saudades, saudades do velho Colégio, das velhas amizades e brincadeiras e você novamente rirá e se divertirá com elas e não se arrependerá de tê-lo guardado".
Agradeço a todos aqueles que contribuíram para que aqui chegássemos, especialmente, com muito carinho, a nossos pais e a nossas famílias.
Cumprimentos especiais ao Sales e ao Scharth, que magistralmente conseguiram orquestrar este evento, e ao Comandante Guilherme por tê-lo tornado possível. Esse belo encontro, que possibilita que companheiros que estavam distantes há anos, tornassem a se encontrar, ratifica que é possível, com dedicação e perseverança, cerrar fileiras em prol de um ideal comum e alcançar resultados muito expressivos e prazerosos.
Que Deus nos abençoe e permita que possamos repetir este momento ainda outras décadas, mantendo-nos com lucidez e clareza de espírito para que nunca esqueçamos a importância dos singelos episódios de nossas vidas aqui construídos. Eles criaram a conjuntura cósmica favorável que possibilitou, um dia, a justa e oportuna combinação dos inefáveis elementos que inflamaram a chama de nossa pura, desprendida e sincera amizade que, impassível ao tempo, jamais fenecerá.
Tenho certeza de que faríamos tudo de novo!
Turma Humaitá – Turma Unida – Turma Forte!