MATEMÁTICA

Daniel Caetano de Figueiredo

Van Gog

Às folhas tantas do livro matemático, um Quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma incógnita. Olhou com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base: uma figura ímpar; olhos rombóides, boca trapezóide, corpo ortogonal, seios esferóides. Fez da sua uma vida paralela à dela até que se encontraram no infinito...

" Que és tu?" - indagou ele em ânsia radical. "Sou a soma dos quadrados dos catetos. Mas pode me chamar de hipotenusa". E de falarem descobriram que eram o que em aritmética corresponde a almas irmãs: primos entre sí.

E assim se amaram ao quadrado da velocidade da luz, numa Sexta potenciação traçando, ao sabor do momento e da paixão, retas, curvas, círculos e linhas senoidais nos jardins da Quarta dimensão. Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas e os exagetas do Universo Finito. Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E enfim resolveram se casar, constituir um lar, mais que um lar, uma perpendicular. Convidaram para padrinhos o Polígono e a Bissetriz. E fizeram planos, diagramas e equações para o futuro, sonhando com uma felicidade integral e diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante e três cones muito engraçadinhos. E foram felizes até aquele dia em que tudo vira afinal monotonia.

Foi então que surgiu o Máximo Divisor Comum, frequentador dos círculos concêntricos viciosos. Ofereceu, a ela, uma grandeza absoluta e reduziu-a a um denominador comum. Ele, Quociente, percebeu que com ela não mais formava um todo, uma unidade. Era um triângulo, tanto chamado amoroso. Desse problema ele era uma fração, a mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade e tudo que era espúrio passou a ser moralidade, como aliás em qualquer sociedade.

 

 

Extraído da Coluna Matemascópio, publicada pelo Cel. do Exército e Professor Manoel Felizardo de Paula Pessoa Mendes.

Sobral, abril de 1999.