(arquivo criado em agosto/98)

 

 

 

 

Poesias Publicadas em Jornais

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Coluna "Correio Social" – 10/10/1959

 

DONA FELICIDADE

Caetano de Figueiredo

Nos bons tempos dos quais tenho saudade

Minha mãe, muitas vezes, me dizia

" Menino, vai chamar Felicidade,

Ali perto, na rua da Alegria..."

E tão de pronto essa ordem era-me dada

Eu deixava os brinquedos e corria

A procurar Dona Felicidade,

Costureira, na rua da Alegria.

Cumprida tal missão, constantemente

Vinha Felicidade, sorridente,

De olhos risonhos, de apressado andar;

Felicidade é mesmo assim, a gente

Chama, às vezes, por ela inutilmente

Pois ela vem, si tem pressa em Chegar.

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Coluna " Correio Social "

SERENIDADE

Sempre eu soube esperar. A minha vida

Tem sido longa e sigilosa espera

Que se realize uma falaz quimera

Que eu reencontre uma ilusão perdida

E no final de contas, dessa lida

Suave como mover pequena esfera

Resta ao meu coração o sol de primavera

Da minha mocidade consumida!

De modo que ao chegar certa hora derradeira

A que muito se teme – ao calor da lareira

Minha alma ficará ainda à espera de alguém

De alguém que há de chegar, talvez trazendo flores

E sem gestos teatrais de exibição de dores,

Confirmará, talvez, que sempre me quis bem...

Caetano de Figueiredo

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~Caetano Figueiredo~

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Onda Solitária

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( VERSOS)

______

~1960~

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"De Pontibus" de J. Marriman, é um tratado

clássico das pontes anglo – saxonicas.

Eu, que também andei estudando aquela lingua

De soldados e de pastores, pelo mesmo motivo constante

No prefácio d’aquele livro, escrevo:

Laus Tibe , Carissima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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VITÓRIA AMARGA

No distante Itaqui, a nossa vida

Era ingênua, risonha e resumida

Em recíproco amor para casar depois...

Depois – quando eu já fôsse diplomado

Engenheiro,Doutor, ou Advogado,

Ganhando pelo menos para dois...

Mas, para a colimada formatura,

Faltava quasi um lustro de aventura

De sorteios de ponto e colações

De encrencas com bedéis e uns professores

Solenes, neuropatas, transmissores

De longas e soníferas lições

Com nove ou dez honrosas exceções.

Cassandra, uma mulher, com intransigência

Logo se opôs à projetada ausencia

Mulher não gosta de competição

E no afâ de evitar eu fôsse reprovado,

Atou ao meu pescoço aureo fetiche alado,

De cabeça de pombo, n’um cordão!

Quasi um lustro depois daquele dia,

No auri-verde salão da Reitoria,

Eu, que colara grau vencendo mil escólhos

Vi uma chispa de luz que há nos teus olhos

Luzir no anel de grau da minha mão.

 

 

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O SUAVE ENLEVO

Quando em férias voltaste do Colégio,

Eu andava escrevendo um florilegio

Dos ingênuos madrigais em teu louvor;

Chegaste cheia de meiguice e vida

E a minha alma ficou tão comovida

Que eu mal pude dizer-te : és uma flor!

Naquela mesma tarde alvissareira

Fomos revêr o sitio Bolandeira

A cacimba empedrada e o cajueiral

O povo do "São Pedro" , alvoroçado

Bispava a minha farda de soldado

E o teu vestido de colegial...

Chegada a noite feiticeira e quente

Cheia de vagalumes – juntou gente

Para nos ver de perto, no salão;

E quando alguma velha cochichava,

Se estavas minha noiva, se eu te amava

Piscando os olhos, respondias: não!

Mas quando os visitantes, horas mortas,

Se foram embora e se trancaram as portas

E janelas do avoengo casarão,

Tu, dando início ao sonho azul celeste,

Que foi nossa novela, me disseste

Que eu era o dono do teu coração!

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GATA BORRALHEIRA

Teu juvenil amor – nosso quasi noivado –

Foi um conto de amor ingênuo e delicado

Como aqueles do livro " O Reino da Ilusão";

Quando eu te conheci, morena feiticeira,

Vivias tal e qual a " Gata Borralheira "

No solar do Itaquí, no avoengo casarão.

Mas depois desse belo e inequecível dia,

Em que te conheci, chegou toda a alegria

Que Deus deu aos mortais para nós dois:

É que o sol, o verão, as excursões às cristas

Da montanha e o ar das tardes de ametistas,

Estancaram a alergia e a curaram depois...

Aquele nosso amor – quasi noivado –

Deixou o meu destino tão marcado

Pelos teus beijos que, um tremor na mão,

...inflexível avatar de um hipertiroideano,

Me conduz, de mês a mês, de ano a ano,

De semana em semana, dia a dia,

Aos sonhos mortos da melancolia

Ao reino da ilusão...

E tu voltaste, pela vida inteira,

Ao modo de viver da " Gata Borralheira "

No aconchego de um lar, simples, feliz...

Quem me dera viver contigo a mesma vida

Na tua solidão incompreendida,

Mas o bom Deus não quiz!

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AQUELA SEXTA-FEIRA

 

Quando chegaste , era uma Sexta-feira;

A Livramento e o Conego Teixeira

Jogavam, discutindo, o seu gamão

E, - como em tudo há sempre uma ironia, -

Aquele belo e tumultuoso dia

Era uma SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO....

Quasi um ano depois, quando partiste

Certa manhã mais húmida e mais triste

Do que teus lindos olhos côr de imbúia,

O povo do Itaquí, na Palestina,

De uma maneira alegre, viperina,

Festejava o romper de uma Alelúia...

Sei que não lembras mais aquele dia

Quando me deste o primeiro "bom dia",

Quando eu beijei, primeiro, a tua mão;

Mas eu me lembro, pela vida inteira,

Daquela tumultuosa Sexta-feira –

E daquele DOMINGO DA PAIXÃO...

 

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QUANDO ERAS MUITO MOÇA

Aquele nosso amor – ingênuo sonho

Que te fêz formosa e, tão risonho

Fêz com que fôsse pela vida inteira;

Aquêle nosso amôr sempre deu vaza

A muitas aflições dos lá de casa

E à consultas ao Cônego Ferreira...

Namorados, nós dois, sempre sòzinhos

Davamos caça aos passaros, aos ninhos,

Nos verdes labirintos dos cipós...

E então – eram os escandalos supremos-

A Livramento, às voltas com o Adoremus,

Nos reprovava de passearmos sós.

Aos domingos de festa, o campanário

Bimbalhando sonoro e tumultuario,

Alvoroçava o ingênuo lugarejo

E então, muito mais cedo, alvoroçados,

Ficavamos a rir, de braços dados,

Depois da praxe dos setenta beijos...

Setenta beijos, só, - era o "bom dia"

Que tu me davas cheia de alegria,

De olhos risonhos, de emoção na voz;

Mas, porque fôsses moça e eu muito moço,-

O nosso idílio enchia de alvorôço

Nossos paes, nossas mães, nossos avós...

 

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ÁGUAS PASSADAS

Meu amor, o teu mal é todo asneira

Pois eu fujo contigo ou vou ser freira

Se não me deixam casar com você ...

-No tempo em que esta jura ela fazia,

Eu andava bem mal na Geografia

E ela bem mal andava no A.B.C.

Minúcias de meu sonho que te expandes!

-És a blusa maruja, os olhos grandes-

Aqueles olhos tristes de carvão;

As mãos de sêda, a voz bemolisada,

Dessa que trouxe a minh’alma exaltada

Uma gloria de bolha de sabão! ...

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DOIS DESTINOS

Ao voltar ao Itaqui achei tudo tão perto:

-A cacimba, da casa; o curral, do jardim;

O meu quarto, do teu; - mas tudo tão deserto

Do que o tempo levou, do teu amor por mim!

Vi nossos monogramas na mangueira:

-Foi um pacto de amor lavrado a canivete

Quando juraste:- " de qualquer maneira ,

Quer esse povo queira, quer não queira,

Eu serei tua ou pintarei o sete" ...

Anos depois, tu eras Normalista

E Filha de Maria!

E eu - era um pobre sentimentalista

-Um homem que sofria ...

 

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LIBERDADE

Sia. Quinóta da Serra, a vida inteira

Segunda, têrça, quarta e sexta-feira

Nos transportava ao "Reino da Ilusão";

Contava histórias lindas, desoladas,

De Princesas, de Principes, de Fadas,

De um ciumento e terrivel Castelão...

Ao calor do fogão que, na cozinha,

Nos aquecia, a plácida velhinha

Nos transportava ao "Reino da Ilusão"...

Para a velha Babá – que caducava –

Tu eras a Princêsa que eu amava

E eu, ciumento e terrivel Castelão!

Mas eu naquele tempo já pecava...

A presença da velha e antiga escrava

Nos privava do bem de estarmos sós;

E eu – que era o Castelão – determinava

Que fôsse embora àquela antiga escrava

Para haver liberdade para nós...

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SABATINA

Era um velho costume na terreola,

Em cada antiga e conceituada Escola,

Haver, semanalmente, uma arguição;

E tu – que andavas sempre enamorada –

Tinhas a mão mimosa castigada

Porque nunca sabias a lição...

A nossa velha mestra – Sia. Doninha –

Períta em Luis Felipe e em ladainha,

Certa manhã, mandou-nos conjugar

Um verbo um tanto ou quanto inconveniente

Nas flexões do Passado ou do Presente:

O verbo confissão – o verbo Amar.

Conjugue lá, você que está brincando...

(Mostrou-me a palmatória...) o verbo, quando

A Pessoa que fala, já deixou

De querer bem alguém ... E eu, perturbado,

Olhando sem querer para o teu lado,

Respondi comovido -: Ela me amou ...

Quando chegou tua vez de ser arguida,

O sino deu sinal para a saída –

Teve final aquela Inquisição ...

E, à noite, em tua casa, na calçada,

Tu recitaste, sempre apaixonada, -

No modo conjuntivo, - o verbo da arguição!

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QUARTO CRESCENTE

Naquela noite de Quarto Crescente,

Abandonamos, sorrateiramente,

Nossas rêdes e o velho casarão

E, - porque fôsses minha enamorada, -

A noite escura, a solidão da estrada,

Não te trouxe temor ao coração.

Parece, ainda, ouvir a ventania

Uivar, bramir, na escura serrania,

Gemer, estrangulada, nos grotões;

E a mataria, desfolhada, escura,

Carpir como se fôsse uma creatura

Nas tais histórias das assombrações ...

Relembro, então, os beijos que me deste,

Teu vestido de cassa azul celeste –

E as juras namoradas que trocamos

Naquela noite de Quarto Crescente

Quando fugimos sorrateiramente

Do velho casarão onde moramos.

Anos depois, tu eras Normalista,

Eu, Engenheiro e, ao te perder de vista

Eu me esquecí tambem da tua vóz ...

-Um dia, ouvi de Monsenhor Pereira

Que te casaste numa sexta- feira,

-Num dia aziago para todos nós!

Nesse dia, de certo, a ventania

Uivou, carpiu, na escura serrania,

Gemeu, estrangulada, nos grotões;

E a mataria, desfolhada e escura,

Chorou como se fôsse uma creatura

Como se fosse os nossos corações!

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PENITÊNCIAS

 

A conspirata que nós dois tecemos

Escondendo o velhissimo Adoremus-

De nada nos valeu mais uma vez ...

E assim, nós dois, naquela sexta-feira,

Confessámos ao Conego Pereira

O que agora é segrêdo entre nós três ...

Naquela tarde, o candido vigário,

Determinou-me, no confessionário,

Senão negava-me absolvição, -

Que, quando eu te beijasse, só beijasse

Por indulgência dêle ... – a tua face

E quando muito, os dedos de tua mão!

Porém ficaste moça e eu fiquei moço

E me beijavas com tanto alvorôço,

Com tanto frenesí, com tal paixão –

Que, por mais que eu quisesse e procurasse,

Quasi nunca beijava a tua face

Nem as pontas dos dedos de tua mão!....

 

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ALTA NOITE

 

A escuridão da noite, a chuva, o vento,

E a tristeza sem par do firmamento,

Nos encheram de tédio e solidão;

-Naquela noite, minha enamorada,

Não pusemos cadeiras na calçada

Nem eu beijei a flor de tua mão...

Alta noite, chegando um luar de prata,

Propicio à serenata, a serenata

Do meu violão, de manso, te acordou....

Quando abriste a janela, emocionado

Senti, num beijo, esse gosto salgado

Que a gente tem nas faces, se chorou.....

Quando às vezes acordo e a noite escura

Mefaz lembrar os transes da aventura

Da noite em que choraste e eu te beijei,

Sinto,de novo, o bem que me quiseste

E os beijos amorosos quer me deste

Para selar segrêdos que guardei!....

 

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HISTÓRIAS DO AMOR

 

Era nas noites calmas, enluaradas,

-Quase tão claras como qualquer dia -

Que a nossa velha ama repetia

As histórias dos Principes, das Fadas.

 

E a Princesa esqueceu - ela disse -

Ao ficar moça, as juras namoradas....

Essa história de amor nos comovia

E eu ficava de pálpebras molhadas.

 

Tu, meu amor, mais emotiva ainda

Do que eu, ficavas linda, muito linda,

Quando acusavas a Princesa Lís....

 

Mas hás de vêr, em época vindoura,

Que em toda história de morena ou loura

Costuma haver um Principe infeliz!

 

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EVICÇÃO

 

Naquele tempo bom, tão distanciado,

Em que floriu o enlevo delicado

Da eterna historia de eu querer-te bem,

Certa noite de chuva e sexta-feira,

A Livramento e Monsenhor Pereira

Discutiam os limites do Belem

E, meu amor, que encrenca, que barulho

-E quanto nome feio: advogado, esbulho,

Surgiu naquele jogo de gamão!

Então, pensando que ninguem olhasse,

Tomei teus labios contra a minha face

E dei um grande beijo em tua mão.

Mas o meu beijo foi tão clamoroso,

Tão cheio de carinho, tão custoso,

Que sentimos, nós dois, um beliscão....

-Veio logo a defesa: "Tia Chiquinha,

O beijo do priminho na priminha

É o que o Direito chama uma evicção!"

Do final de tal noite merencorea

Até o final da nossa ingenua historia

De amor de primos, nós, - por precaução-

Passamos a apostar beijos, abraços, "fiados"

Nos mesmos lances e nos mesmos dados,

Mas a 30 h/d dos jogos de gamão!....

 

 

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O SERMÃO DO ENCONTRO

 

Vinhas de branco; vinhas distraída

Como é teu modo desde aquela idade

Quando o nosso romance - a nossa vida-

Era um problema de felicidade

 

E, junto a ti, a Virgem Concebida,

-Num andor azul, toda diafaneidade, -

Abria a marcha à procissão sentida

Das devotas mulheres da cidade.

 

O Vigario, de prêto e dedo em riste,

Fez um sermão apaixonado e triste,

Cheio de gesto, em retumbante voz;

 

E, ao perorar; "Que mais amou , na vida,

Do que Jesus à Virgem Concebida?"

-O olhar da multidão fixou-se em nós....

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A ÚLTIMA TENTAÇÃO

 

Ela chegou-se a mim, muito mais bela ainda

Que sempre e me falou que tudo era acabado

Entre nós, pois soubera, envôlta em meu passado

Certa Princesa loura, adolescente e linda.

 

Eu nem soube negar....-Numa tristeza infinda,

Notei-lhe, sob o luar, seu corpo apaixonado;

Demais ao meu castelo esplêndido, isolado,

Até julguei loucura aquela abrupta vinda....

Era quase manhã, entre os lótus e uns buxos,

Cantava a água gelada e clara dos repuxos

E havia, no jardim, pavões adormecidos,

 

Quando ela resolveu - entre risadas francas -

Confessar que chegara, envôlta em rendas brancas

Só para castigar os meus cinco sentidos....

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SEGRÊDO

 

 

 

Para que sejas minha, ainda é muito cedo:

Tu és quase infantil e eu sou, ainda, pobre....

Nosso amor deve, pois, ser o maior segrêdo

Dos teus olhos da côr de clorêto de cobre

 

Não contes a ninguém o delicado enrêdo

Do nosso grande amor sentimental e nobre;

Não tenhas confidente, amor, que tenho mêdo;

-Sempre morre um prazer quando a inveja o descobre.

Tudo isso eu lhe dizia...- Uma tarde, ao sol-posto,

Brigamos sem motivo: ela voltou-me o rosto

E o nosso caso andou, nas rodas, boca em boca....

 

 

 

 

 

 

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BOM LADRÃO

 

 

 

Desceste do cavalo e, alvoroçada,

Desceste logo, sem me dar a mão

E, assim, pisando a escada da calçada

Pisaste em cheio no meu coração.

 

Naquele dia, estavas arruinada

Por motivo de um jôgo de gamão;

No qual, tirando uns tentos, minha amada,

Pratiquei uma simples evição....

Pouco tempo depois já não havia

Entre nós dois capricho ou prevenção

E, desprezando apôdos e motejos,

Dos outros primos, recobri de beijos

A tua boca que, ainda pouco, havia

Chamado ao teu parceiro de ladrão!....

 

 

 

 

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A VOLTA DA PRINCESINHA

 

 

 

Certa noite de chuva, às minhas mãos chegava

Uma carta de amor, às pressas redigida;

"À noite eu partirei para ser tua escrava;

Vou para o teu amor por toda a minha vida".

 

Uma saudade imensa era o que me restava

Da Princesa aromal, trigueirinha e querida,

Que vinha para mim - vinha ser minha escrava -

Ela que fôra o amor de toda minha vida...

Emoção de esperar numa velha alamêda,

Uma mulher de mãos macias como a sêda,

De olhos da côr da noite, lábios de coral;

 

 

-Ternura de apertar nos braços, doidamente,

Alguém que quis fugir do coração da gente,

-E fugiu e sofreu, e voltou afinal!

 

 

 

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NOSSA HISTÓRIA SECRETA

 

 

 

Nossa história secreta, principiada,

Entre dois beijos, tão discretamente,

Deve permanecer ignorada

-Como até hoje - para toda gente

 

Que a tua boca trêfega e rosada

E a tua voz, macia, suave e quente,

Jamais nos denuncie dizendo nada

Que nos possa trair presentemente

Quando, porém, num dia porvindouro

A velhice oxidar teus olhos de ouro

E ninguém mais te admirar - então-

Tu poderás, feliz ou desolada,

Contar a alguém a história apaixonada

Da minha vida e do teu coração!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ALEGRIA

 

 

 

Quando partires, amanhã bem cedo,

De olhos risonhos, de alma enamorada,

Julgarás escutar o teu segrêdo

Na voz do teu pisar sobre a calçada...

 

Que essa ilusão não se transforme em mêdo,

Nem te faça ficar sobressaltada;

- Ninguém descobrirá nosso segrêdo

Na canção dos teus passos na calçada...

Guarda, porém, contigo, essa alegria

Que dos teus lindos olhos se irradia

Quando tu vens, quando te vais depois...

 

Porquê teus olhos de ágata polida

São janelas abertas para a vida

- Para a vida secreta de nós dois....

 

 

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À LUZ DO LAMPIÃO

 

 

Eu fui dizer ao velho mar, um dia,

Quanto te amava enternecidamente;

Ele me ouvia e, pachorrentamente,

Do seu leito de abismo, me inquiria

 

Mas - quando eu lhe contei a quem queria

Com tanto afeto e apaixonadamente-

Ele encrespou-se todo, de repente,

E, altas horas da noite, inda rugia....

 

Contei, então, ao sol, na hora do poente

-Na hora da Ave Maria-

Quanto eu te amava sigilosamente

E o bem que te queria!

O velho sol, na crassa ingenuidade,

De velho Deus pagão,

Fitou-me sem maior hostilidade

( Um tanto de revéz )

Mas prometeu-me que projetaria

Tua sombra, no chão,

Debaixo dos meus pés....

 

Veio porem a noite, iluarada,

E a luz do poste de iluminação

Da tua rua êrma e sossegada,

Projetou nossas sombras, na calçada,

- Unidas pela mão!

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